26.7.08

Artigo de Manuel Maria Carrilho

O antigo ministro português da Cultura, Manuel Maria Carrilho, que proximamente vai assumir as funções de Representante Permanente de Portugal junto da UNESCO, publicá hoje no Diário de Notícias um artigo intitulado "Portugal Global ?", que a seguir se transcreve:

A última década foi marcada pelo confronto entre duas perspectivas, uma que detectava na globalização a raiz de todos os males do mundo e outra que lhe atribuía todas as virtudes, transferindo para o nível global a incantatória retórica do mercado.

Os factos vieram mostrar o simplismo destas perspectivas, bem como a crescente complexidade do fenómeno. Eles vieram sobretudo evidenciar uma enorme alteração na correlação de forças a nível mundial entre os países que dominaram a economia do século XX e os países emergentes, que subitamente abriu uma nova era no acesso aos recursos naturais tão fundamentais como escassos: energia, bens alimentares, etc.

Mas os factos vieram também revelar que a globalização do século XXI não será só política, nem apenas económica, e que ela comporta cada vez mais um terceiro pilar, que podemos chamar "cultural". A atenção a este pilar é fundamental, nomeadamente para a paz e a cooperação no mundo, porque só ele pode atenuar os atritos, as tensões e as conflitualidades que a ameaçam.

É que o fim das distâncias físicas que a revolução tecnológica propiciou nas últimas décadas, e que se desenvolveu em paralelo com a globalização, revelou também, ao mesmo tempo, a incontornável importância das diferenças civilizacionais e culturais, assim como as suas imensas e inesperadas consequências. Tanto o "11 de Setembro" como a invasão do Iraque são, deste ponto de vista, factos que devem ser vistos como indícios dos enormes riscos que o mundo corre com uma globalização sem dimensão cultural, comunicacional e civilizacional.

Neste contexto, a Cimeira da CPLP, que nestes últimos dias esteve reunida em Lisboa e que abre um período de dois anos em que a presidência da comunidade é assumida por Portugal, pode adquirir um novo e importante significado. E o Governo português, com a recente aprovação de uma "estratégia de desenvolvimento e promoção da língua portuguesa", e com a criação de um fundo de 30 milhões de euros para a apoiar, parece tê-lo compreendido.

Como há dias lembrava José Carlos Vasconcelos (um dos mais persistentes defensores desta causa) já se perderam demasiadas oportunidades, nomeadamente quando, depois da 1.ª Cimeira de Ministros da Cultura da CPLP, realizada no Estoril, em 2000, se abandonou o programa nela aprovado. O importante é que, agora, ao assumir-se um tal desígnio, não se caia numa visão economicista de curto prazo, que as dificuldades circunstanciais podem estimular. E que se compreendam dois pontos decisivos que Eduardo Prado Coelho sublinhou num dos seus lúcidos textos sobre esta matéria. O primeiro é não se pode "separar uma política da língua de uma política de cultura, que as duas têm o destino ligado". E o segundo é que, "se queremos desempenhar adequadamente o nosso papel no espaço da lusofonia, temos de reforçar a nossa integração no espaço europeu e procurar que a construção europeia ganhe uma assumida e expansiva dimensão cultural". (O Cálculo das Sombras, pp. 103/104).

É que, em matéria de língua, não há "valor económico" sem uma robusta base cultural - a francofonia e a hispanofonia aí estão a demonstrá-lo todos os dias. A alavanca de qualquer "estratégia de promoção da língua portuguesa" está, na verdade, fora dela: está na literatura, no cinema, no teatro, na música, no audiovisual, etc. Está nos contactos, nas itinerâncias e nas parcerias que, nestas áreas, têm de ser estruturais e exemplares. Está tanto na criação como no comércio, no ensino como no investimento. E está também na construção de um "espaço público" comum, sem o qual nenhuma comunidade... comunica.

A prova da verdade de uma política da língua faz-se em todos estes domínios, porque a "língua" não é uma essência, nem uma herança à margem do tempo, mas uma criação contínua que exprime a vida dos indivíduos e das comunidades. O que implica, ainda, o entrosamento de todas estas dimensões com o mundo de possibilidades que a televisão, a Internet e outros meios tecnológicos hoje proporcionam. Se assim não for, nenhuma estratégia, por mais bem-intencionada que seja, sai do século passado...

A equação é esta: para se avançar na lusofonia, Portugal tem de crescer em cosmopolitismo, o que por sua vez exige um efectivo reencontro com as suas raízes históricas mundiais. É isto que está por fazer, e não pode ser adiado. É que, se o negócio anima o momento, só o fio da história garante o futuro.

O que está em causa não é uma questão de "passar à acção", como tantas vezes se diz com aquele voluntarismo fácil que não passa, afinal, de uma confissão de impotência. O que está em causa é agir com uma visão da lusofonia à altura dos desafios actuais, o que implica que se dê à CPLP não só uma efectiva ambição política mas também os meios para a concretizar. Sem isso, tudo não passará, mais uma vez, de uma passageira bruma de Verão. Será desta?

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