Morre o escritor brasileiro Moacyr Scliar

O escritor brasileiro Moacyr Scliar faleceu este domingo, 27 de fevereiro.
"Não preciso de silêncio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais. Preciso só de um teclado." Em meio a dezenas de depoimentos de autores sobre as mais diferentes manias no momento de escrever, publicados desde o início do ano passado no blog do escritor Michel Laub, o do gaúcho Moacyr Scliar se destacou pelo pragmatismo: para o criador prolífico e naturalmente inspirado, o único impedimento para a escrita seria a falta da ferramenta com a qual levá-la a cabo.
Tanto era assim que, em quase 50 anos de carreira literária, o porto-alegrense publicou mais de 80 livros - o primeiro, Histórias de um Médico em Formação, em 1962, mesmo ano em que concluiu a faculdade de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e o mais recente, o romance Eu Vos Abraço, Milhões, em setembro do ano passado. Entre um e outro escreveu romances e livros de crônicas, contos, literatura infantil e ensaios, numa média de mais de um livro por ano, com destaque para O Ciclo das Águas, A Estranha Nação de Rafael Mendes, O Exército de um Homem Só e O Centauro no Jardim.
Tudo isso mantendo os critérios que o tornaram um dos mais reconhecidos autores brasileiros contemporâneos em solo nacional, com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras desde 2003 e três Jabutis (1988, 1993 e 2009) entre prémios recebidos, e também no exterior, com obras publicadas em 20 países, incluindo Portugal, e honrarias como o Casa de Las Americas, em 1989.
A tradição judaica acompanhou-o em toda a carreira literária, assim como o imaginário fantástico - nascido em 23 de março de 1937 no bairro do Bom Fim, que até hoje reúne a comunidade judaica de Porto Alegre, e alfabetizado pela mãe, Sara, que era professora primária, Scliar chegou a ter o romance O Centauro no Jardim incluído numa lista com os cem melhores livros sobre a história dos judeus dos últimos dois séculos, elaborada pelo National Yiddish Book Center. Também se tornou um grande porta-voz do País sobre temas relativos ao judaísmo, mantendo laços de amizade com alguns dos maiores autores israelenses no mundo contemporâneo, como David Grossman, A.B. Yehoshua e Amos Oz.
A especialização em saúde pública, por sua vez, deu a Scliar a oportunidade de vivenciar temas como a doença, o sofrimento e a morte - características que podem ser percebidas tanto em sua ficção, em obras como A Majestade do Xingu, quando na não ficção, caso em que A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura é um dos exemplos mais claros.
A presidente Dilma Rousseff divulgou nota pela morte do escritor Moacyr Scliar. "Recebi com muito pesar a notícia da morte de Moacyr Scliar, um dos mais respeitados escritores do nosso País", diz a nota, que o descreve como um ícone da literatura gaúcha, brasileira e latino-americana. "É com tristeza que nos despedimos desse mestre da nossa literatura", conclui.
"Além de suas qualidades inegáveis como intelectual, que fizeram dele um autor reconhecido pelo público e crítica, Scliar sempre contribuiu com ações de incentivo à leitura", afirma, em nota, a ministra da Cultura, Ana de Hollanda.
O presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marcos Vinicios Vilaça, lamentou a morte do escritor, que ocupava a cadeira 31 desde 2003. Na semana que vem, a instituição realiza a Sessão da Saudade, em que os membros da ABL prestam homenagens e relembrama vida e obra de Scliar. No final do evento, será declarada a vaga aberta, inaugurando o processo sucessório.
Leia mais no Estado de São Paulo
0 comentários:
Enviar um comentário