Dicionário de Luís de Camões: na ponta da língua portuguesa

Camões: mitos nacionais e consagração universal
Da vida de Luís Vaz de Camões (c. 1524-1580) - escreve a jornalista, ficcionista e historiadora portuguesa Maria João Martins - pouco se sabe; consta que, aventureiro, era tão rápido a manejar a espada como a entregar o coração.
Em relação à sua poesia, contudo, há mais certezas - como a de que funciona como um sol em torno do qual gravitam Bocage, Jorge de Sena, Fernando Pessoa, Almeida Garrett e Caetano Veloso, entre tantos outros dignos de figurar aqui.
Demonstram-no as 1.008 páginas do Dicionário de Luís de Camões, coordenado por Vítor Aguiar e Silva, que a Editorial Caminho porá à venda em Portugal a partir da próxima terça-feira. Pelas suas páginas pode avaliar-se a extensão de temas para a qual remete à obra do autor da grande epopeia de língua portuguesa, desde a recessão da sua poesia em vários sistemas literários mundiais até a identidade de várias amadas e musas que lhe são atribuídas. "Erros meus, má fortuna, amor ardente" em sua perdição se conjuraram.
Para Vítor Aguiar e Silva, este desafio monumental nasceu há mais de seis anos, lançado pelo agora presidente da Associação Portuguesa de Escritores, o poeta José Manuel Mendes. Professor catedrático da Universidade do Minho, com obra reconhecida internacionalmente nas áreas da Teoria da Literatura e da Literatura Portuguesa do Maneirismo e do Barroco, Aguiar e Silva, de 72 anos, hesitou antes de aceitar o repto, apesar do curriculum que tanto o autorizava.
Depois de longo e aturado estudo, entregou à Caminho (editora de José Saramago e Mia Couto) um plano detalhado de trabalho. Estávamos no princípio de 2009. Dois anos e meio depois, o resultado aí está com forma de volume. "Não foi tarefa fácil. Antes de mais porque se havia verbetes óbvios (Os Lusíadas, por exemplo), outros nem tanto", esclarece-nos o coordenador da obra.
À partida, Aguiar e Silva tinha dois grandes objetivos: "Deixar bem caraterizada a época literária de Camões e as suas relações artísticas" (e é por isso que encontramos no Dicionário verbetes dedicados a António Ferreira, Sá de Miranda ou ao espanhol Garcilaso de la Vega) e a atualidade da sua obra, um clássico universal sempre revisitado, mesmo por quem não o lê: "Creio que Eduardo Lourenço tem muita razão quando diz que Camões criou a única mitologia portuguesa. Em Portugal continuamos a invocar abundantemente figuras como Adamastor e o Velho do Restelo".
A universalidade de Camões levou Vítor Aguiar e Silva a desafiar investigadores espanhóis, italianos, norte-americanos e, como não podia deixar de ser, brasileiros. Um deles é Márcia Arruda Franco, professora da Universidade de São Paulo, particularmente devotada ao estudo de outro poeta português do Renascimento Sá de Miranda.
Autora de seis verbetes deste Dicionário, considera a sua colaboração na monumental obra como "a oportunidade de diálogo com pesquisadores da minha geração e de gerações anteriores, todos empenhados numa releitura de Camões e do século XVI, do ponto de vista histórico-cultural e poético.
O dicionário de uma obra é o seu comentário e a sua redefinição, este labor coletivo de revisão do camonismo funcionará como uma nova referência para os estudos críticos e para o ensino de Camões, gerando reinterpretações da sua poesia".
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Márcia Franco não está sozinha. Neste Dicionário surgem ainda outros brasileiros que, citando Caetano Veloso, roçaram a língua de Camões: Gilberto Mendonça Teles, Leodegário A. De Azevedo Filho, Maria Helena Ribeiro da Cunha e Sheila Moura Hue. Vítor Aguiar e Silva esclarece que nem poderia ser de outra maneira: "O Brasil tem alguns dos mais importantes camonistas do mundo, numa tradição que foi introduzida pelo português Fidelino Figueiredo ainda na primeira metade do século XX e logo seguida por figuras como Sigismundo Spina, criador da Revista Camoneana (hoje só publicada on-line) ou Cleonice Berardinelli.
Márcia Arruda Franco também não tem dúvidas quanto à "presença constitutiva de Camões na literatura brasileira de agora". Basta, para entendê-lo, "apontar a referência ao Poeta na cultura de massa, incluídas aí não só a poesia cibernética de Glauco Mattoso, que escreveu mais sonetos do que Camões e Petrarca, mas também a MPB, a conhecida Língua, de Caetano Veloso, e Monte Castelo, de Renato Russo.
"Para o homem que, reza a lenda, perdeu o olho direito a defender a presença portuguesa em Ceuta, no Norte de África, e ficou reduzido à miséria enquanto escrevia Os Lusíadas, em Macau, esta universalidade é uma forma de justiça poética. "Se mais mundo houvera, lá chegara."
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