
Hoje, 19 de Agosto,
Dia Mundial de Acção Humanitária, o jornal brasileiro Folha de São Paulo publica o artigo do ex-primeiro ministro português e actual Alto Comissário da ONU para Refugiados,
António Guterres, que aqui se transcreve na íntegra:
"O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) ainda está chocado com o recente e brutal assassinato do nosso colega de equipe Zill-e-Usman, que foi atingido por um atirador não identificado no campo de Katcha Gari, na fronteira das áreas tribais administradas pelo governo do Paquistão, na fronteira noroeste do país.
Outro colega de equipa, Ishfaq Ahmad, foi ferido nesse incidente, no último dia 16 de julho. Um guarda que trabalhava para o Comissariado para Refugiados Afegãos, agência financiada pelo governo, também foi morto.
Segundo relatos, cerca de quatro ou cinco atiradores abriram fogo contra Usman quando ele retornava do escritório administrativo do campo para o seu carro, em visita de rotina. Usman foi o terceiro funcionário do Acnur morto neste ano no Paquistão.
No dia 9 de junho, Aleksandar Vorkapic morreu no bombardeio do hotel Pearl Continental, em Peshawar. No dia 2 de fevereiro, Syed Hashim, motorista do Acnur, morreu no sequestro do chefe do escritório de Quetta, John Solecki, que foi posteriormente libertado. Como escrevi para a família de Usman, sua morte foi um choque cruel.
Não há justificativa para ataques a trabalhadores humanitários dedicados à proteção e ao cuidado das pessoas mais vulneráveis do mundo. Sua morte foi um ultraje e uma tragédia que afecta a todos nós.
Neste 19 de Agosto, por ocasião do primeiro Dia Mundial da Ação Humanitária, façamos um momento de silêncio para lembrar Usman e outras centenas de funcionários da ONU e de organizações não governamentais que perderam suas vidas enquanto cumpriam suas tarefas ao redor do mundo.
A data é importante: foi no dia 19 de agosto de 2003 que uma forte explosão em Bagdá tirou a vida do então representante especial da ONU para o Iraque, Sérgio Vieira de Mello, e de outras 21 pessoas.A constante matança de trabalhadores humanitários levanta importantes questões sobre como garantir a segurança das nossas equipas em ambientes instáveis e inseguros.
Em termos globais, esse facto faz-nos reflectir sobre o grande dilema que se impõe às agências humanitárias ao redor do mundo: como responder às necessidades das pessoas mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, garantir que os que prestam ajuda estejam em segurança?
Nossa habilidade para atender aqueles que mais precisam está sendo severamente testada pela diminuição do assim chamado "espaço humanitário", no qual devemos trabalhar.
A natureza dos conflitos está mudando, com uma multiplicidade de grupos armados -alguns dos quais veem agentes humanitários como alvos legítimos.
Outro exemplo disso foi o brutal assassinato, no mês passado, de Natalia Estemirova, funcionária da ONG Memorial, parceira do Acnur na Rússia.
Natalia foi encontrada morta na região de Ingushetia, no norte do Cáucaso, após ter sido sequestrada em sua casa na Tchetchênia.
Desde 2000, além de seu trabalho como pesquisadora em direitos humanos, Natalia vinha trabalhando como assistente social da ONG Memorial em projetos de aconselhamento legal e social em Grozny.
Ela trabalhava em questões ligadas aos deslocados internos na Tchetchênia e seu retorno seguro para suas casas.
A Memorial tem sido uma parceira implementadora do Acnur no norte do Cáucaso desde 2000 e recebeu, em 2004, o prémio Nansen, concedido anualmente pelo Acnur.
Agentes humanitários trabalham nos lugares mais perigosos do mundo e arriscam suas próprias vidas no esforço para ajudar populações vulneráveis a preservar as suas.
Garantir a segurança dessas equipas deve ser uma prioridade máxima para qualquer organização humanitária e para as Nações Unidas como um todo. Isso é inegociável.
E, ainda assim, com a evolução da natureza dos conflitos e a atitude de alguns actores armados, o número de ataques deliberados a agentes humanitários tem crescido, estabelecendo uma tensão e, em algumas situações, uma contradição entre os imperativos de segurança das equipes e a própria acção humanitária.
O Acnur tem lutado continuamente para estabelecer um nível de risco "aceitável" ao qual os seus funcionários se podem expor."